Pensava em como definir a viagem que a Soledad realizou entre Agosto de 2010 e Fevereiro de 2011. Pensava que não era definível. Pensava em colocar um ponto de início e um ponto final. Pensava que isso só era possível no calendário. Pensava que o calendário não diz respeito a toda uma experiência vivida. Pensava que o calendário não queria dizer ao respeito de nada e sim só organizar. Pensava que não tinha meios para compartilhar o que sentia. Pensava e penso. Penso e antes sinto.
Sinto que a viagem da Soledad abriu um lugar em mim onde a única sensação possível de pertencer sou eu mesma, meu próprio corpo.
Mas, antes disso, conheci pessoas, compartilhei histórias, almoçamos juntos, menti, mentimos e convivemos. Invadi e fui invadida.
A experiência, bastante pessoal, em cada casa, não pode passar a formar parte de uma história comum senão apenas em forma de ficção: o blog da Soledad.
A experiência, tudo que pensei, senti, intui durante, depois e antes da viagem, poderia, até certo ponto, ser expressado em palavras. Mas, para quê?
O que consigo entender é que as pessoas precisamos um espaço e construímos esses lugares em forma de casas. Que elas abrigam o que somos e o que queremos ser. Que nelas inscrevem-se milhares de histórias sem direitos de autor. Que os lugares falam de nós e não precisamos fazer nada para isso. Naturalmente, vivemos, convivemos, criamos espaços e dialogamos com eles.
Mas, se alguém quer observar esse lugar, ou seja, viajar e conhecer o lugar do outro na sua cotidianidade... inevitavelmente entrará em contacto com seu próprio espaço, aquele que era, que vai morrendo na memória ou é reinventando e, aquele que é, o corpo.
Terapia?
Sim.
Auto-conhecimento?
Também.
Resultado?
Desconhecido.
Também pensava que inventamos um mundo onde o deslocamento não é bem-vindo, ao menos que ele não seja controlado. Ou seja, somos convidados o tempo todo a conhecer novos lugares através de pacotes turísticos, viagens virtuais etc., que predeterminam o quê vamos conhecer. E, sobretudo, estipulam onde, quando e como nós, os aventureiros, vamos estar em caso de o FMI precise falar connosco porque esquecemos o abajur da sala acesa e estão preocupados em saber se vamos poder pagar a conta de luz no final do mês.
Se sairmos desta lógica, o mundo vira efectivamente, pernas pro ar. O mundo, enquanto organização e institucionalização...
só resta, o ser humano
o ser humano mesmo
as relações
e, dessas, nesta viagem, temos tido uma vasta experiência!